O empoderamento

Ontem li o edital para Pontos de Cultura do Estado de São Paulo. Como todo edital é cheio de meandros e especificações que você deve seguir para fazer tudo direitinho e conseguir o “prêmio” para o seu projeto.

Me chamou muito a atenção um detalhe “Das definições” que eu colo aqui na integra:

3.1. Para os efeitos deste edital entende-se que:

a) Ponto de Cultura é a denominação geral que as instituições com projetos selecionados a partir deste Edital receberão. O Ponto de Cultura deverá funcionar como um instrumento de pulsão e articulação de ações e projetos já existentes nas comunidades do Estado, desenvolvendo ações continuadas em pelo menos uma das áreas de Culturas Populares, Grupos Étnico-Culturais, Patrimônio Material, Audiovisual e Radiodifusão, Culturas Digitais, Gestão e Formação Cultural, Pensamento e Memória, Expressões Artísticas, e/ou Ações Transversais. Os Pontos de Cultura são elos entre a Sociedade e o Estado que possibilitam o desenvolvimento de ações culturais sustentadas pelos princípios da autonomia, protagonismo e empoderamento social, integrando uma gestão compartilhada e transformadora da instituição selecionada com a Rede de Pontos de Cultura.

A primeira vez que ouvi falar em “empoderamento” foi seguido de uma crítica muito simples: Isso não existe! Foi lá pelo ano de 2005 e na sequência essa palavra parecia sempre estar ligada a algum tipo de movimento social. A escutei várias vezes em uma palestra da Adolescência do MST no mesmo ano de 2005, por exemplo.

Na época, e algum tempo depois também, as discussões na internet a respeito do “empoderamento” iam no mesmo sentido da crítica ácida ao aportuguesamento de empowerment, ou coisa que o valha.

Quando comecei a trabalhar com os Pontos de Cultura as duas expressões que mais ouvia eram: empoderamento e mudança de paradigma. E isso de forma muito séria. Mas o fato de ambas as coisas serem muito complexas (hahahaha) e ao mesmo tempo impalpáveis e até mesmo duvidosas dependendo da situação em que era usada, acabava por ser quase uma lenda cultural.

No meu papél de oficineiro de vídeo com software livre para os pontos de cultura, eu tinha, e sempre tive, que levar em consideração o empoderamento, já que isso é um desejo sincero do pessoal dos Pontos de Cultura, nas oficinas que dava e dou.

Mas apesar de poder garantir que muitas pessoas realmente aprenderam a editar vídeo com software livre comigo, não podia afirmar que já tivesse alguma vez feito algo que pudesse dizer que fosse empoderar alguém. Se é que isso realmente existia.

Na última oficina que dei em Porto Alegre, dias antes de voltar para São Paulo, era a terceira oficina de uma série de 4 oficinas para a mesma turma que havia começado um curso de produção multimídia já a dois meses, e eu era o responsável apenas pela parte da edição, o pessoal empoderou.

Quando fui apresentado a turma que faria a oficina, me disseram: “eles não falam, nunca. Você tem que mandar pra eles falarem!” Quando a pessoa que disse isso saiu da sala avisei pra todo mundo que falava quem queria. E eles realmente não falavam.

No terceiro dia de oficina, nos dois anteriores todos os tipos de problemas que sempre ocorrem ocorreram, iniciei um exercício muito simples com eles: com dois clips no timeline e uma transição unindo os dois, perguntei para cada um o que eles achavam que podia melhorar naquele “filme”. Houve uma primeira rodada de perguntas, alguns falaram, outros não. O ponto foi que  tudo o que aqueles que disseram para ser feito no “filme” eu executei no software. Assistimos ao vídeo com as mudanças. Perguntei novamente e todos deram opinião, com excessão de uma única menina.  Novamente executei as mudanças no “vídeo”, porém eles já estavam muito mais exigentes e cada pequena mudança só era aprovada pela turma depois de feita e assistida diversas vezes. Eu já não precisava perguntar. Todos diziam, de forma muito tranquila, mas empolgada, o que deveria ser feito para melhorar aquele “filme”. Eles escolheram trilha sonora, uma imagem para começar o filme, o nome do filme. E eles mesmos já pediam para voltar e assitir de novo, até que se deram por satisfeitos e disseram “fizemos um filme” e pediram para passar mais uma vez o filme inteiro. Então, depois de assitirem, novamente ao “Filme”, que recebeu o nome de Olho Mágico, de forma espontânea, se aplaudiram durante pelo menos uns 2 minutos.  Em seguida, convidaram todos que estavam no Ponto de Cultura para assistir o vídeo. Aqueles que o assitiram não demonstraram grande empolgação e sairam da sala, mas o pessoal que tinha feito o vídeo começou a bater palmas de novo para eles mesmo, e neste dia foram embora rindo e falando sobre o filme que fizeram.

No último dia de oficina, eles deveriam editar um outro vídeo e fazer um novo filme. Eu fiz o seguinte, filme uma entrevista com cada um pedindo para que eles contassem porque haviam batido palmas no final da oficina. Infelizmente por causa da péssima qualidade da câmera e das condições o áudio do vídeo ficou muito prejudicado, mas ainda assim dá pra escutar as entrevistas.

Segue o vídeo realizado por eles:

A estratégia que usei foi bem simples. Entrevistei um por um, isoladamente, e pedia para que aquele que tinha acabado de fazer dar a entrevista escolhesse o próximo. Depois que todos já tinham dado a entrevista pedi para que todos entrassem e avisei que iriamos assistir a todas as entrevistas. Em um primeiro momento todos ficaram absolutamente constrangidos com isso e na primeira vez que assitiram suas próprias entrevistas se encolhiam e fechavam os olhos. Na terceira vez já se viam e falavam de si mesmos com a maior naturalidade. Expliquei pra eles que eles teriam que descobrir uma linha narrativa de forma que as entrevistas criassem uma continuidade entre si. Eles selecionaram os trechos e a ordem das entrevitas de forma bastante organizada, bastante empolgados e com muita seriedade.

Para editar eles usaram o KDEnlive, posso garantir que utilizar esse software foi crucial para tudo o que aconteceu. Por ser extremamente fácil, mas também estável houve pouquíssima frustação em todo o processo. Cada um editou um trecho de uma entrevista que não era necessariamente a própria e novamente ficaram muito satisfeitos com o resultado.

Acho muito legal perceber que a estratégia de registrar uma experiência de empoderamento teve da minha parte a intenção de observar, registrar, documentar esse processo para compreendê-lo melhor.

Uma coisa que na minha opinião fica claro através do vídeo é que apropriação da ferramenta e empoderamento são duas coisas independentes. É absolutamente possível você empoderar sem compreender ou se apropriar daquilo que está sendo transmitido. E, quando empoderado, você leva isso literalmente para a sua vida. É uma transformação no seu eu, é uma ruptura com um continuo que pode ser apenas de derrota ou frustação. Empoderamento tem relação com realização. Por isso, é possível pensar momentos de transmissão de conhecimento, tipo oficinas, para o empoderamento e não necessáriamente para a apropriação de alguma ferramenta. Na realidade, uma pessoa empoderada provavelmente vai se apropriar de qualquer ferramenta com muito mais facilidade. Por isso, pensar um momento voltado para o empoderamento tendo a ferramenta como meio  será muito mais proveitoso do que pensar simplesmete em estratégias para a apropriação da ferramenta tendo o empoderamento como uma possibilidade.

Por fim, o “filme Olho Mágico” provavelmente se perdeu ou dificilmente virá a público. E isso nunca incomodou o pessoal que fez a oficina. Tê-lo feito foi o mais importante para eles, e eles fizeram o filme para eles próprios.

Palmas para eles.

    1. Para os efeitos deste Edital entende-se que:

    1. Ponto de Cultura é a denominação geral que as instituições com projetos selecionados a partir deste Edital receberão. O Ponto de Cultura deverá funcionar como um instrumento de pulsão e articulação de ações e projetos já existentes nas comunidades do Estado, desenvolvendo ações continuadas em pelo menos uma das áreas de Culturas Populares, Grupos Étnico-Culturais, Patrimônio Material, Audiovisual e Radiodifusão, Culturas Digitais, Gestão e Formação Cultural, Pensamento e Memória, Expressões Artísticas, e/ou Ações Transversais. Os Pontos de Cultura são elos entre a Sociedade e o Estado que possibilitam o desenvolvimento de ações culturais sustentadas pelos princípios da autonomia, protagonismo e empoderamento social, integrando uma gestão compartilhada e transformadora da instituição selecionada com a Rede de Pontos de Cultura;

2 Respostas para “O empoderamento”

  1. Gera, gostei muito do teu texto. Penso muito nessa história de empoderamento x instrumentalização, mas não sei se só o empoderamento, como abertura de uma possibilidade, dar a alguém

  2. (foi sem querer) a possibilidade de se tornar um produtor audivisual, nesse contexto, é fantástica, porque gente que nunca pensou que podia descobre que pode. No entanto, sem a instrumentalização, sem o uso da ferramenta acho que perde-se grande parte daquele empoderamento porque apenas a possibilidade é pouco. Claro que se o indivíduo tem briô, tem vontade, uns anos depois ele pode até voltar aquele empoderamento recebido, no entando, no vazio do empoderamento, sem instrumentalização, ele mesmo pode vir a se perder. mas continuemos a pensar porque a coisa se constroe assim, fazendo e pensando…

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