Bando de bandidos

Certos assuntos devido ao espírito da época devem ser tratados com certo cuidado para não se voltarem contra você. Mas devido ao mesmo espírito da época, as chances de que não se virem contra nós é muito remota.

Certa vez, em uma palestra que aconteceu em Recife, por volta de 2007, ouvi certa pessoa, que não vou citar para não ligar certos nomes que respeito a certas idéias, disse que as redes são coisas antigas, que existiam há muito tempo, que por exemplo, os quilombos funcionavam em redes.

Esta idéia ficou na minha cabeça, mas não só na minha. Tanto que pouco depois em um evento do Cultura e Pensamento a antropófaga Helena Buarque fez uma palestra tratando exatamente desse assunto. Não vi a palestra dela, tive que consertar o telhado da minha casa. O telhado ficava mais ou menos à altura de um edificio de três andares, e com a ajuda do Galego Cara-Torta e do Irmão Josias consegui impedir que minha sala inundasse novamente por causa de calhas entupidas.

Quais outras redes antes dessa da qual agora fazemos parte existiram? Quais suas características? Quais relações guardam com essa atual?

Podemos fazer uma leitura dizendo que um quilombo era exatamente um espaço no qual se primava pela liberdade, de escravos que por seus próprios esforços e bravura tornaram-se libertos, um lugar de homens e cultura livre.

Mas existe uma outra forma de ver os quilombos. Um lugar de homens que usurparam a propriedade privada que eles mesmos representavam, que lesavam e traziam prejuízo para todo um sistema economico e sendo assim lutavam contra a ordem vigente e automaticamente eram contra o Estado.

Em um texto intitulado Response to the Tactical Media Manifesto: A Network of Castles, do Peter Lamborn Wilson (A.K.A. Hakim Bey) ele nos fala de uma outra rede, formada por diversos castelos que abrigava os Assassins, um pessoal que só queria ficar tranquilo, mas que para conseguir tal tranquilidade vez por outra tinham que assassinar alguém (ou coisa assim).

E então chegamos a mais algumas redes, por exemplo, a Máfia. Al Capone tinha uma das redes mais poderosas do século XX. Incluia todo tipo de gente. Basicamente o que faziam era comércio. Vendiam produtos proibidos, bebidas alcoólicas no caso. E, é claro, lesavam o Estado. Isso pra citar uma máfia hollywoodiana. A Camorra, a Yakuza, a Cosa Nostra, o Cartél de Medellin, todas agiam e agem ainda no formato de rede. E todas, no fundo, faziam ou fazem a mesma coisa, comércio de produtos proíbidos.

É claro, não nos esqueçamos das redes de espionagem! Grandes comerciantes de? Informação. Normalmente trabalhavam para algum governo, inclusive era resultado deles como as outras redes mostradas aqui, mas não eram exatamente confiáveis. Outra coisa muito interessante sobre espionagem é que, apesar de já ter visto exemplos relacionados até com a caça de mamutes na pré-história, o termo colaboração foi cunhado na Europa, mais exatamente na França, como crime de guerra, relacionado, digamos assim, a espionagem.

O fato é que as redes citadas aqui tem uma diferença crucial das de agora: a invisibilidade. Todas as organizações e grupos que se utilizam do recurso da rede os fazem porque as conexões dessas redes eram invisíveis. Nossas redes são montadas em cima de famas, indentificações e reconhecimento.

Ainda assim alguns congressistas poderiam usar como argumento que querem nos tornar mais visíveis ainda, para nos distinguir entre criminosos muito periculosos, criminosos pouco periculosos e apenas criminosos.

Mas eles se esquecem de Mauro Marcelo Lima e Silva. Mauro Marcelo foi responsável pelo setor de crimes da Internet da Policia Cívil e é ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). É um policial, por isso pensa como tal, mas também é um dos maiores especialistas de crimes na internet no Brasil. O ponto é que no longínquo ano de 2000 e poucos, Mauro Marcelo já dizia que não existia anonimato na internet, que é mais fácil resolver crimes virtuais do que no mundo real e que o grande problema para enfrentar esses crimes era a falta de preparo da policia e a falta de cooperação internacional por diversos motivos.

Isso me parece mostrar que é um pouco ilusório que distribuir e baixar conteúdo seja algo que essas leis venham realmente impedir, que nós termos privacidade ou coisa do tipo na internet, ou que alguém que queira realmente nos achar por qualquer motivo que seja, tipo nos prender porque baixamos musicas do Metallica,  não consiga.

Todas essas leis e projetos de leis que estão aparecendo pelo Brasil, e pelo mundo,  só reforçam um jeito imbecil de fazer politica, na qual a responsabilidade do governo é tranferida para a sociedade. Ao invés de investir na máquina disse-se que nós temos que fazer isso ou aquilo para garantir a segurança geral.

Enquanto isso, algumas redes continuam funcinando a mil por hora, tipo as redes de corrupção.

PS.: Mauro Marcelo foi o cara que chamou o pessoal do congresso de Bando de Besta-Fera.

PS2.: Quem falar “antropófaga” com a boca cheia de farofa vai virar objeto de estudo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.